A Hora Barravento - Introdução

Este espaço foi pensado e criado para expor idéias, falar de música, poesia, artistas, cultura e também besteiras. O nome "A Hora Barravento" é uma homenagem ao Jornal "A Última Hora" que abrigou grandes jornalistas como Nelson Motta que sempre soube ver a música popular brasileira e suas divergências com imparcialidade e como um todo; e ao grande poeta e letrista Torquato Neto. Barravento é uma homenagem a Glauber Rocha, grande cineasta do Cinema Novo que deu um novo sentido as diretrizes da nossa cultura brasileira através das telas do cinema.

Wednesday, June 28, 2006

O Alaudista


Gostaria de dividir com vocês esta pintura do grande mestre Caravaggio, "O alaudista" , um belo retrato de sensualidade e torpor de um jovem com seu olhar melancólico de paixão, tocando alaúde e com seus lábios entreabertos como quem canta Voi sapete ch'io v'amo (Você sabe que eu te amo) de um dos madrigais do compositor franco-flamenco Arcadelt. O violino à mesa é um singelo convite ao espectador para se juntar a esta bela música. Vem?

Thursday, June 22, 2006

Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade


MANIFESTO ANTROPOFÁGICO


Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupy, or not tupy that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atrapalhava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil. Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade prelógica para o Sr. Levi Bruhl estudar.

Queremos a revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. A idade do ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Oú Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba. Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Kosmos ao axioma Kosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de Senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipejú.

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu ge]que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o.

Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem, que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu:-É a mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios, e o tédio especulativo.

De William James a Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a pro-curiosa (sic).

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas o caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove. No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura-ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor quotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados do catecismo-a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema-o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI:-Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud-a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

Oswald de Andrade Em Piratininga Ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha.
Originalmente publicado em Revista de Antropofagia, n.1, ano 1, maio de 1928, São Paulo.

Saturday, June 17, 2006

De olhos bem fechado


Na última quinta-feira, um amigo e eu fizemos reservas para uma performance muito diferente: The Dark Dinning ou Jantar às Escuras. O evento aconteceu no espaço chamado Galapagos que fica no Williamsburg no Brooklyn. (Aliás tô devendo um blog sobre Williamsburg que é muito charmoso e interessante). Galapagos é superbacana. É uma mistura de bar com música ao vivo - geralmente jazz - com espaço de performances, o local tem uma vitrine enorme onde se vê uma enorme piscina negra que se extende até o fundo onde se tem o bar e o palco. Na piscina, uma plataforma lateral surge breve para que se possa andar e contemplar com algumas poucas fotografias que flutuam no espaço negro. Quando se chega ao bar, existe uma entrada lateral onde se tem os banheiros e o "Back room" aonde acontecem as performances ou exibições de arte. Tudo muito rústico sem a preocupação de agradar ou querer ser chic, mas de muito bom gosto.

Demos os nossos nomes, recebemos máscaras para vendar os nossos olhos e assim que a colocamos, não vimos mais nada. Fomos então levados para as mesas aonde seria servido o jantar seguido de apresentações. Tudo tinha a sua hora, havia hora em que podiamos conversar, na outra comer e na outra somente ouvir o que estava ao nosso redor mas sem ver nada, absolutamente nada! Foi muito interessante. Na hora de comer, havia perdido a paciência por estar tentando achar com o garfo a comida e resolvi usar as mãos (afinal ninguem me via mesmo). Quando um amigo meu perguntou como eu estava comendo, disse alto e em bom tom: "Com as mãos!" Uma menina com sotaque indiano que estava perto disse no maior alívio com mistura de felicidade "eu também! Eu também estou comendo com as mãos! É bem mais fácil!" Barulhos de chuva e construção faziam parte da apresentação, haviam momentos que os músicos te tocavam, faziam massagem, passavam a mão no teu cabelo, um dos artistas cantou, sapateou fazendo percurssão com o corpo. Ouvi até um clavicórdio que só foi audível depois da segunda música devido aos ruídos. No final, depois que tudo havia sido servido, éramos escoltados para fora e daí podíamos tirar as máscaras. Recebemos então o menu incluindo o programa do que a gente havia comido e participado! Foi diferente, bacana, mas te confesso, foi muito bom poder ver de novo. Foi caro e quando chegamos em casa ainda tivemos que pedir comida, porque ainda estávamos com fome! Rsrsrsrs!

Thursday, June 08, 2006

A Festa


Ha! Quem não se lembra daquela festa em que depois do almoço subimos para o terraço para fazer música e celebrar aquele dia maravilhoso de primavera? Cantamos, tocamos, trovamos, versamos e fizemos jogos do amor. Razão ou sorte? Sentimento ou coincidência? A verdade era que não existia realmente um vencedor ou perdedor. Aqueles que se intitulavam Iluministas diziam que a razão era a verdade, enquanto os outros diziam que o amor era vida. No fim um bêbado se levantou e concluiu: "Meus caros, vida é como um barco que navega num mar ora de rosas, ora de incertezas, o amor é o vento que o impulsiona e a razão o leme que o guia... e eu um pobre coitado esperando um suspiro de uma dessas donzelas para impulsionar meu barquinho!" . O pobre feliz deu mais um trago em seu vinho, caiu no chão, todos deram uma gargalhada e voltamos a tocar...